O Brasão de Portugal
- Das Quinas -
Quanto à sua origem e significado, a versão mais antiga que se conhece foi divulgada pelo conde D. Pedro (filho bastardo do rei D. Dinis), 1287-1350, na sua "Crónica Geral de Espanha", de 1344.
No capítulo DXLI, intitulado "Como e por qual razão chamaram o condado de Portugal", escreve:
... foy posto o nome a terra Portugal. E quando el rei dom Afonso deu esta terra ao conde dom Henrique em casamento com sua filha, mandou que lhe chamassem o condado de Portugal. E este conde dom Henrique houve um filho desta sua mulher dona Teresa, que houve o nome dom Afonso e foi feito rei em na batalha que houve com os V reis em o campo de Ourique. E, depois da lide, mudou os sinais das suas bandeiras, cá, antes da lide, trazia as armas brancas como seu padre e, depois da lide, pôs em no seu pendão V escudos azuis, por memória dos V reis que vencera, e pose-os em cruz, por relembrança da cruz em que Nosso Senhor Jesus Cristo teve as espáduas, e, em cada um escudo, pôs XXX dinheiros brancos, representando os por que foi vendido, segundo adiante ouviredes.
No capítulo DCCVIII, intitulado "Como o príncipe dom Afonso foi feito rei e venceu a batalha de Ourique", escreve:
Conta a estória que,... ajuntou todas suas gentes e foi sobre os mouros e correu-lhes a terra toda de Coimbra até Santarém e daí passou o Tejo e correu toda a terra até o campo de Ourique, onde achou el rei Ismar que a essa sazão era rei da Estremadura com cinco reis que o vinham buscar, sabendo o grande dano que lhes fazia em sua terra. E entrou com eles em batalha no lugar que é o dito Castro Verde e venceu-os e matou e prendeu a maior parte de todas suas gentes.
Mas, antes que entrasse em na batalha, conta a estória que os seus o alçaram por rei. E desde então se chamou rei de Portugal. E, depois que os reis foram vencidos, como dissemos, el rei dom Afonso de Portugal, por memória daquele bom acontecimento que Deus lhe dera, pôs no seu pendão cinco escudos por aqueles cinco reis e pose-os em cruz por relembrança da cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. E pôs em cada um escudo XXX dinheiros por memória daqueles XXX dinheiros por que Judas vendeu Jesus Cristo. E daí tornou-se para a sua terra mui honradamente e com grande vitória.
Assim. seria como se encarava a origem e significado dos escudetes na 1ª metade do séc. XIV e note-se que o conde D. Pedro remete para uma memória existente ao referir que conta a estória... Os escudetes representavam os cinco reis mouros derrotados; a disposição em cruz aludia à crucificação de Jesus; os besantes estavam pelos 30 dinheiros por que Judas traira Jesus.
Alguns anos depois, a 14 de julho de 1380, o bispo de Lisboa, D. Martinho, descreveu o escudo real numa passagem do seu discurso perante o rei Carlos V de França, dizendo:
Pelo que o nosso rei fez cinco escudos em forma de cruz com cinco golpes, em cada escudo de azul e branco, pelo facto de na batalha em que saiu vitorioso contra infinitos sarracenos no Campo de Ourique se encontrarem no corpo do rei cinco golpes em forma de cruz.
Aqui, os cinco reis são substituídos por cinco feridas sofridas por D. Afonso Henriques na batalha.
Segue-se, o designado "Armorial Ocasional do Concílio de Constança" escrito e iluminado pelo arauto Constantinopla em 1416, que declara:
... disseram a esse mesmo conde que o queriam a ele como rei e com ele viver ou morrer. Logo de imediato o fizeram rei no acampamento. No dia seguinte, travado combate entre sarracenos e cristãos, os cinco reis caíam mortos... E, porque antes daquele combate, tal rei cristão vira numa aparição a Nosso Senhor Jesus Cristo com as cinco chagas, e pelo auxílio da graça do mesmo Cristo vencera esses cinco reis infiéis, e naquele combate cinco escudos haviam sido despedaçados no seu braço, traçou para si e para os seus sucessores as suas armas. Deste modo, mandou pintar em honra das cinco chagas de Jesus Cristo cinco escudos em forma de cruz da cor do céu em campo branco, e, nesses escudos, trinta dinheiros de prata em memória da venda de Jesus Nosso Senhor.
Verificamos que as cinco feridas de D. Afonso Henriques passam a ser as cinco chagas de Jesus Cristo.
Apenas exponho a documentação mais antiga que revela o que os seus autores acreditavam, e explica o que todos já ouvimos sobre essas armas, isso não implica necessariamente que essas tivessem sido as ideias de quem efetivamente concebeu os cinco escudos azuis carregados de besantes em campo de prata (branco), o que terá ocorrido algures no final do reinado de D. Afonso Henriques (depois de 1170) e certamente antes de 1189 (há um sinal rodado de D. Sancho I com os escudetes).
- Dos Castelos -
O escudo real foi acrescentado de uma bordadura, de vermelho, com castelos de ouro durante o reinado de D. Afonso III, cuja origem reside num escudo vermelho semeado (número indefinido) de castelos de ouro que seria o brasão do infante D. Afonso (nascido em 1210) quando foi acolhido na corte francesa (cerca de 1229) pela sua tia D. Branca de Castela mulher do rei Luís VIII (após a morte deste, regente do reino de França na menoridade de seu filho futuro Luís IX).
D. Afonso terá usado castelos por a sua mãe, D. Urraca (casada com o rei de Portugal D. Afonso II), ser filha de D. Afonso VIII, rei de Castela, e ele, como filho segundo, escolheu brasão por via materna (semelhante, mas não igual ao brasão de Castela que é um único castelo) já que não era o herdeiro da coroa portuguesa. Outros netos de D. Afonso VIII de Castela adotaram armas (brasão) semelhantes às deste seu avô detentor de grande prestígio europeu após a decisiva vitória de Navas de Tolosa, em 1212, sobre o califa almóada.
Sua tia vai arranjar-lhe casamento, em 1235, com a viúva Matilde II, condessa de Bolonha, e assim D. Afonso torna-se conde de Bolonha. Subsiste nos arquivos nacionais franceses (proveniente de documento da abadia de Froidmont) um selo equestre de D. Afonso, já conde de Bolonha, de 1241, em que os castelos preenchem todo o escudo do cavaleiro e a parte frontal da gualdrapa do cavalo enquanto a parte da garupa se reveste das armas de sua mulher (Dammartin semeado de França antiga) que o novo conde juntou às suas.
De 1245 a 1248, decorre a guerra civil em Portugal entre D. Afonso e seu irmão, o deposto rei D. Sancho II, cujo falecimento, a 4 de janeiro de 1248 (em Toledo), eleva ao trono D. Afonso III. Antes da morte de D. Sancho, D. Afonso usaria o seu brasão de conde de Bolonha, e o cronista Rui de Pina garante que, na sua nova condição de rei, D. Afonso III passou a utilizar apenas o brasão das Quinas, (idêntico ao do seu irmão D. Sancho II).
Segundo Rui de Pina, D. Afonso III somente juntou às armas reais a bordadura vermelha com os castelos de ouro depois da conquista definitiva do Algarve, em 1249, quando se intitulou Rei de Portugal e do Algarve, e em representação desse novo território (em 1253, resigna ao condado de Bolonha e repudia a mulher D. Matilde). Esta afirmação do cronista-mor do Reino tem gerado controvérsia entre os estudiosos, mas o certo é que o primeiro selo que se conhece de D. Afonso III com as quinas e os castelos é de 8 de maio de 1251, não havendo forma de provar que Rui de Pina errou ao escrever na "Crónica do muito alto e esclarecido príncipe D. Afonso III...":
...se intitulou sómente Rey de Portugual e Conde de Bolonha , e trouxe seu Escudo com has sóos Quinas sem a Orla, e bordadura dos Castellos, assi como hos outros Reys de Portugual atée este tempo trouxeram , segundo en coronista ho vi nos selos pendentes de algumas suas Cartas, que naquelle tempo passaram, e has achey na Torre do Tombo destes Reynos, de que por ho offício som guarda-móor.
Em suma, parece que D. Afonso III terá recorrido ao seu antigo brasão pessoal para representar uma nova conquista (e mostrando também bem que foi ele quem a realizou), não tendo razão quem diz que a bordadura dos castelos nada tem a ver com o Algarve nem quem julga que apenas teve a ver com a posse do mesmo (o número de castelos da bordadura só seria fixado séculos depois).

Boa tarde Sr. Sérgio Sodré,
ResponderEliminarO meu nome é Carlos Rangel Pinheiro e sou de Lisboa.
O apelido Rangel que assino é do meu avô materno, ramo brasileiro da minha ascendência .
Sou genealogista amador , embora sem formação académica na área .
Ao pesquisar esse ramo remota da minha ancestralidade descobri que as origens luso-brasileiras são muito antigas e remontam aos primórdios do século XVII e que praticamente se confundem com a fundação da cidade do Rio de Janeiro e que dentre os meus antepassados ( graças à endogamia) constam praticamente todas as primeiras famílias ali radicadas .
O ramo Rangel fixou-se na região de Porto das Caixas , quando José da Fonseca Rangel casou com Amélia Josephina Torres , filha de Manuel José Rodrigues Torres.
Portanto, a minha ascendência brasileira é resultante das alianças entre os Rodrigues Torres de Itaboraí e os Rangel sendo que Bento Pereira Sodré era meu antepassado de décima geração, através de seu filho Bento Pereira da Silva e sua neta Francisca Pereira Sodré ( 1744).
Gostaria de saber como fazer para acompanhar os seus estudos e pesquisas,
Melhores cumprimentos,
Carlos Rangel Pinheiro
Boa Noite Sr. Carlos Pinheiro
EliminarPraticamente todas as minhas pesquisas estão traduzidas nos textos que aqui escrevi, e também é verdade que nos dias de hoje pouco investigo nesta área, mas quando surge algo de interesse arranjo forma de acrescentar neste blogue.
Melhores cumprimentos,
Sérgio Sodré